Controlando o Zone Read

O zone read é um dos esquemas de corrida mais populares do FA mundial. A ideia de ler a movimentação do jogador mais externo da linha defensiva durante o mesh do QB com o RB é muito boa, pois tira um defensor da jogada sem bloqueá-lo. A intenção é sempre fazer este defensor “errar” e deixar a bola nas mãos do jogador que ele escolheu não defender. Porém, a defesa pode escolher quem fica com a bola e ditar a decisão do QB, ajustando seu run fit ao jogador que ela quer que seja o ball carrier.

Nosso gameplan para este jogo era colocar a bola nas mãos do QB em caso de zone read, pois teríamos números melhores para defender a corrida dele em caso de keep. A situação é 1st & 10 no primeiro quarto do jogo entre Canoas Bulls x Bulldogs FA, válido pela Copa Sul 2018. Nosso End é o responsável pelo gap C, mas, em caso de down block do Tackle, ele deve “deletar” o gap B, indo em direção ao RB e forçando o QB a manter a bola. O Mike tem a mesma leitura de down block, já que é responsável pelo gap B e o Tackle faz parte da sua leitura. Como o End deleta o gap B, ele pode substituí-lo no lado de fora da linha, já que ele sabe que o QB ficará com a bola.

O Nickel está em apex com o Tackle e o #2 (dividindo a distância entre eles) e também tem seus olhos no OT. Assim que ele vê o down block, ele imediatamente reage à corrida do QB. O nosso número extra é o Free, que vai fazer o seu fit de acordo com o que o Nickel faz na jogada. Como o Nickel consegue ganhar a frente do #2, o Free ocupa o espaço entre o #2 e o #1 para chegar na jogada caso necessário. Se o #2 fizesse o scoop no Nickel e o mantivesse para o lado de fora do campo, o Free ocuparia o espaço entre o #2 e o nosso End.

Se a intenção fosse deixar a bola nas mãos do RB, o End manteria seus ombros paralelos à linha, ao mesmo tempo em que fecha o espaço deixado pelo Tackle em seu down block, forçando o give, mas, estando em posição de defender o QB, caso ele fique a bola. O Mike, então, deve manter seus olhos no gap B e encontrar o RB para fazer o “espelho”, realizando o fit onde a corrida acontecer. Veja o vídeo da jogada:

Atacando a Defesa em 3rd Down

Continuando a analisar chamadas ofensivas, vamos para esta 3rd & 7 no último quarto do jogo entre Guelfi Firenze e Ancona Dolphis, jogo válido pelo Campeonato Italiano de 2018. Perdendo por 10 pontos, nosso ataque focou primariamente no jogo aéreo (por razões óbvias). Isso abriu espaço para chamadas criativas em certas situações. Neste caso, utilizamos um run-pass option para ganhar a primeira descida utilizando a leitura certa do QB.

Nas terceiras longas anteriores nossas chamadas foram de dropback pass. Esperando isso, os Dolphins nos mostraram um box 4-1, com dois safeties, a 12-15 jardas da bola. Nossa chamada foi um QB Dart combinado com um quick screen para o RB. Esse desenho nos ajudou a vencer o box leve e a mentalidade de pass rush que a DL tinha neste momento. A leitura do QB é bem simples: ele deve ver o posicionamento do Sam (LB do lado contrário da corrida) para decidir se ele está mais próximo de defender a sua corrida ou o RB indo em direção à sideline.

Neste momento podemos ver que o Sam está longe do box, ou seja, em posição de defender o passe no RB. Isso nos deixa com um 5×5 no box, o que é vantajoso para o ataque. Para a OL, a orientação é não permitir que o seu defensor passe na frente do seu rosto em direção à bola. Novamente, essa chamada funciona em uma terceira descida porque a DL está pensando em colocar pressão no QB e quer chegar no “fim do pocket” (depth of the pocket, traduzido de forma bem pobre). Nossa OL – especialmente no lado direito – apenas “ajuda” os defensive linemen a ficarem atrás da bola (ponto que nunca é bom para um defensor). Center e LG fazem down blocks, com o LT fazendo um skip pull em direção ao único LB do box para liderar a corrida e garantir um bom avanço.

Boa leitura do QB, boa execução de bloqueios e boa corrida: first down garantido. Veja o vídeo da jogada:

Vencendo Fire 3

Saindo da defesa e indo para o ataque, vamos analisar como ajustar uma proteção contra blitz e explorar um dos pontos fracos da Fire 3 Zone no jogo aéreo: os seams.

A situação é uma 1st & 10, no primeiro quarto do jogo entre Guelfi Firenze e Ducks Lazio. Novamente, por questão de tendência da defesa adversária, nossa chamada foi feita para explorar a possível Cover 3 que os Ducks apresentavam nessas situações. Não vimos exatamente uma Cover 3 neste snap, mas uma Fire 3 (onde a defesa tem cinco rushers e seis jogadores na cobertura). O primeiro indicativo disso é o fato de apenas um safety estar no fundo do campo e diretamente de frente com a bola. Em segundo lugar, observamos o posicionamento de dois defensores: o Rover está “sobre” o Sam (capping), o que pode ser indicação de blitz, já que ele pode substituí-lo na cobertura. Nosso QB faz essa leitura e prontamente ajusta a proteção.

A proteção inicial era um half-slide para o lado direito (em direção ao Mike), sendo que o RB seria responsável pelo Will (LB do lado esquerdo da OL). A chamada do QB foi simplesmente mudar a responsabilidade do RB. Identificando o Sam como “ninja”, a OL não mudou o lado de seu slide (simplicidade que ajuda a não causar confusão pré-snap) e o RB agora deve bloquear o Sam em caso de blitz. Afinal, é mais fácil mudar o assignment de um jogador ao invés de seis. Agora, o possível free-rusher é o Will, e o nosso QB utiliza sua leitura pós-snap para garantir que não há uma blitz dele.

O QB não precisa mais se preocupar com o Sam, já que a proteção foi ajustada para bloqueá-lo. Logo após o snap, seus olhos se voltam para o Will. Aqui, o QB observa que ele não faz a blitz. Logo, temos seis bloqueadores para cinco rushers. Voltando um pouco para o pré-snap; com a identificação da cover 3 e o conceito de passe que chamamos, o QB sabe que pode fazer uma progressão de seam-para-seam, já que são as duas rotas verticais que podem ser cobertas apenas pelo deep safety em uma Cover 3 convencional. Normalmente, em uma Fire 3, os overhangs (Rover e Will) carregariam as seams, mas não foi o que aconteceu aqui. Essa leitura inicial do QB no Will também faz com que o safety mova-se para aquele lado, deixando o seam do lado esquerdo da defesa mais exposto. O passe bom e a corrida após a recepção garantem os 6 pontos, apesar da “não tão boa” execução da proteção em termos de 1×1.

Veja o vídeo da jogada.

3rd Down Pressures

Desta vez o assunto é um dos meus preferidos: 3rd down packages! Este é o jogo entre Wasa Royals e Seinajoki Crocodiles, na semana 6 da Vaahteraliiga 2019. A situação é uma 3rd & 9, no primeiro quarto da partida.

Situação clara de passe. Decidimos mandar uma 5-man pressure e escolhemos os matchups na nossa marcação individual. Estamos em uma cover 10. Ou seja, temos um post defender (Rover) e nenhum jogador no low hole, já que os outros 5 defensores estão em man coverage.

Sabíamos que, nestas situações, a proteção mais comum dos Crocodiles era o half-slide para o lado oposto do posicionamento do RB. Neste caso, ele faz um check release após ver que o nosso Will LB não faz blitz. Isso nos deixa com 5×5. A nossa vantagem estava no fato de os Crocodiles terem mostrado anteriormente que seus Guards e Center não tinham sucesso contra stunts e games do front adversário – a pobre movimentação lateral dos guards era o principal fator. Então, nossa estratégia foi forçar a comunicação e troca rápida de bloqueios no meio da OL – que acabou não acontecendo e gerou pressão para a QB.

Se o slide é para o lado esquerdo, podemos observar o LG e o C indo para o “lado contrário” e não olhando para quem realmente estava indo em direção aos seus gaps. Em uma boa execução dessa proteção, o Center passaria o Nose para o RG, bloquearia o  Joker e deixaria o Mike com o LG. Ao invés disso, os 3 bloquearam apenas dois, deixando o caminho livre para o Mike. Agora, a função do Mike é passar o mais próximo possível ao LG para não tomar um caminho muito longo para o QB. O timing foi bom e ele fez com que o QB tivesse tempo para apenas uma leitura na jogada.

Essa pressão fez com o QB tivesse que lançar uma bola 50/50 para seu W (provavelmente definida em sua leitura pré-snap) sem chances de continuar sua progressão. Novamente, só fizemos essa chamada porque estávamos confortáveis com os matchups. Nosso BC fez um bom trabalho na cobertura: movimentou seus pés com rapidez, manteve sua leverage e seus olhos nos quadris do W, utilizou o alcance de seu braço para ficar in-phase e, assim que o recebedor olhou para a bola, virou-se para desviar o passe. Curta o vídeo em três ângulos diferentes 🙂

Pressões exóticas fazem com que o ataque espere coisas diferentes vindas da defesa, e um simples blefe de blitz pode confundir uma proteção. É importante usar chamadas para armar outras no futuro, mas isso é tópico para outro post. Até mais!

Split Field Coverages vs 3×1

Escolhi começar por um exemplo de como defender 3×1 (trips, X ou como quer que você esteja acostumado a chamar) utilizando coberturas diferentes de cada lado do campo. Este é o jogo entre Wasa Royals e Kuopio Steelers, valido pela semana 2 da Vaahteraliiga 2019 (Finlândia). A situação é uma 2nd & 10, no primeiro quarto.

Utilizarei a identificação W-X-Y-Z para receivers, T para half backs, H para sniffers e F para full backs. Sei que alguns coaches têm preferência por outros sistemas de identificação, mas este é o qual estou acostumado.

Nossa defesa, na maioria das chamadas, ajustava a cobertura dependendo da quantidade de receivers do seu lado do campo (safeties fazendo a chamada). Neste snap, estamos executando quarters no lado forte e trap 2 no lado fraco.

O Field Corner é responsável pelo primeiro jogador vertical no seu lado. Free, pelo segundo. Nosso Nickel lê o release do #2 (X) para fazer sua comunicação pós snap com o seu lado do campo e, depois, cobre o primeiro jogador que fizer uma rota em direção à sua sideline. O Mike posiciona-se um pouco mais afastado de seu alinhamento original para fazer a parede no #2 final (ou seja, o segundo jogador mais externo após o snap). O Will tem a mesma responsabilidade, mas para o #3 final. Além disso, caso o #3 faça uma rota vertical, o Will é responsável por ele. Sim, estamos pedindo para um LB cobrir um slot receiver. Porém, nós sabíamos que o matchup era favorável, já que o nosso Will LB era um import da NCAA-DII com velocidade e tempo de reação suficientes para essa função.

No outro lado do campo, nosso Boundary Corner deve “cortar” a frente do #1 rapidamente para defender rotas rápidas internas, antes de voltar seus olhos para o backfield para scrambles do QB ou rotas do RB. Este, inclusive, é o ponto negativo deste snap, já que o nosso BC permitiu que o W tivesse um release interno (que seria favorável a ele caso estivesse realizando uma rota como short in ou slant). O Rover é o responsável por rotas verticais do #1 após ele passar do nível do BC.

Neste ponto, a comunicação e a identificação de quem está indo para onde é essencial. Aqui podemos observar o que a defesa está lendo no release dos receivers. O Mike tem visão do X (#2) e do Y (#3), e imediatamente sinaliza a rota para fora do Y. O Nickel tem seus olhos no X e prontamente comunica seu release interno. Neste ponto, o Nickel sabe quem deve cobrir: o Y, já que ele é o “1st out” (recebedor mais externo pós-snap). O FC tem seus olhos no Z (#1) e, assim que este receiver ultrapassa o nível do Nickel, ele sabe que está em man coverage. O mesmo vale para o Free: no momento em que ele percebe o corte do Y em direção à sideline, ele sabe que a única ameaça de #2 vertical é do X. A partir de agora, ele também está em man coverage.

O Mike sabe que deve fazer a parede no segundo jogador mais externo. Por isso, ele mantém seus olhos no X e, com o seu release vertical, recua até a marca de 10 jardas para prevenir curls ou digs do X ou até mesmo do Z. O Will rapidamente identifica o Y correndo para a flat. Agora, ele sabe que não há ameaça de #3 vertical ou #3 cruzando o campo vindo do lado forte. Ele pode recuar até 10-12 e manter seus olhos no backfield para QB scrambles ou rotas do RB.

Novamente, no lado fraco, temos nosso BC utilizando a técnica errada. Ele permite o release interno do W. Pelo menos, após o W percorrer 5 jardas, ele volta seus olhos para o backfield e “fica em casa”. O BC, inclusive, é o responsável por não permitir que a jogada tivesse um grande avanço. O Rover faz bem o seu papel e cobre o #1 em sua rota vertical após ele passar do nível do BC.

Neste ponto podemos ver todos os defensores em seus assignments. O Mike está em posição de ajudar o FC na dig do Z, enquanto o W, sem ameaça do #3, pode auxiliar o Rover na dig do W. O BC mantém seus olhos no backfield, o que é crucial para identificar o QB scramble e fazer o tackle para salvar a jogada.

Durante o snap, podemos observar uma técnica não tão boa do FC, que abre seus quadris muito cedo após o release vertical do Z, mas isso é assunto para outro dia.

Talvez, a única opção real de passe nessa jogada fosse a wheel do Y, já que ele tinha 1 jarda de separação. Porém, a boa identificação inicial de rotas, a comunicação rápida dos defensores em cobertura e a pressão da DL forçam o QB a sair do pocket e sofrer o tackle para um pequeno avanço.

Veja o vídeo da jogada: